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João Gilberto morreu. E daí?

Por Ilauro de Oliveira

08.07.2019

Estupefatos, jovens desse Brasil varonil recorrem apressadamente ao Google na busca por saber quem é esse velhinho que ocupa, neste fim de semana, todas as capas dos sites e jornais brasileiros e mundiais carregando o seu inseparável (e insuperável) violão.

Não sabem de quem se trata. E isso não é culpa deles. Não tiveram seus ouvidos educados pela voz baixa e afinada de João Gilberto. Muito menos pelo batido diferente do seu violão que encantou o mundo.

Enquanto outros países se encantam até hoje com a Bossa Nova de João Gilberto, os brasileiros seguem tendo seus ouvidos domesticados pela música de péssima qualidade que ocupa as grandes gravadoras e depois explode em quase todas as rádios brasileiras. Quase todas mesmo, com raríssimas exceções.

Morreu João Gilberto, o pai da Bossa Nova, com seu estilo único e sua voz afinada, artista respeitado por todos os outros grandes artistas do Brasil e do mundo. Mas e daí? Que diferença faz? As rádios brasileiras não tocam João Gilberto.

Desgraçadamente passaram décadas e décadas estragando nossos ouvidos com todo o tipo de gênero musical, então de que adianta agora escancarar em suas ondas sonoras a fúnebre manchete? Pouca gente sabe quem foi João Gilberto. Seus cds estão escondidos pelos cantos das rádios, assim como estão outros de outros grandes artistas brasileiros.

Envergonhadas, as rádios brasileiras, que eu ouço aos montes madrugada adentro, não tiveram a coragem de, por um instante, parar de tocar essas bobagens musicais que tocam e dizer assim, ainda que rapidamente para não atrapalhar a audiência: morreu João Gilberto, o maior de todos!. Pronto. Era o que bastava.

Mas como poderiam dar destaque ‘de maior’ a alguém que elas sequer tocavam? Perguntariam ainda estupefatos os jovens brasileiros: “Mas como ele era o maior, se vocês nunca tocaram?”. Santa incoerência! Melhor mesmo não dizer nada.

Morreu João Gilberto. Mas e daí? Que falta faz? As rádios não tocavam mesmo. Melhor deixá-lo ir em paz e em silêncio, cabisbaixo e solitariamente, com seu inseparável e insuperável violão.

Quem passou a vida inteira escondendo a obra desse grande brasileiro, não adianta apresentá-lo agora a outros brasileiros como alguém importante, inigualável e genial. É só mais um João que se vai, esquecido como tantos outros, e igualmente mal cuidado por esse Brasil brasileiro.  

 “Fotografei você na minha Rolleiflex / Revelou-se a sua enorme ingratidão” –  Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça)

 

 

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