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A reinvenção do Estrela do Norte

Por Ilauro de Oliveira

30.08.2019

“Quem sonhou só vale se já sonhou demais/ Vertente de muitas gerações / Gravado em nossos corações/ Um nome se escreve fundo” – Beto Guedes/Ronaldo Bastos

Tempos idos, ainda bem jovem, na rua Santa Luzia, no bairro Amarelo, assistia sem entender aquela gente toda descendo a pé e feliz rumo às suas casas em hora alta. Mais atrasadamente, em passos curtos, passava sob minha varanda um negro com seu rádio Motorola vermelho sobre o ombro falando muito.

Mais tarde, o jovem recém-chegado de Itapemirim entenderia as duas cenas e seus atores, e como elas, embora parecendo distantes, se irmanavam em um único sonho de duas cores chamado Estrela do Norte Futebol Clube.

O negro de rádio Motorola sobre os ombros era o Seu Tia, um estrelense fanático e apaixonado, daqueles que não perdia um coletivo nas tardes de quarta e sexta. E aquela gente toda que descia a pé (e, para ser bem sincero, nem sempre feliz) também torcia para o clube que se separava da minha casa por um morro chamado Sumaré, e do qual ficaria mais íntimo futuramente.     

Naqueles anos 80 o Estrela já tinha suas mazelas, e eu, já amante de rádio também, ouvia atentamente a tudo. Por vezes não entendia como, apesar dos problemas, um clube podia mover uma cidade através de notícias tristes e alegres, e de informações sobre treinos e bastidores. E muito mais: como esse clube quando colocava as chuteiras aos domingos tinha o poder único de transformar Cachoeiro em um cenário de felicidade em preto e branco.      

E como a felicidade é o sonho de todos nós, segui inebriado em busca desse sonho feliz, sem imaginar que se a alegria vestia preto e branco, a tristeza vestia apenas preto, mas tinha apito na boca.

As decepções se seguiram por anos porque a cada partida contra clubes da capital parecia que as partes lá de Vitória já vinham combinadas. Isso parecia apenas teoria da conspiração de torcedor derrotado, mas como agora o ex-juiz Sérgio Moro mostrou que tudo isso é possível mesmo, reconheço ter agido certo ao me afastar do clube por vários anos, exatamente para não ficar com a sensação de ser roubado a cada partida.

O amor às vezes pode se transformar em raiva, mas nunca é esquecido. Longe e ausente do estádio Mário Monteiro por anos, continuei amando o Estrela do Norte e torcendo pelo sucesso, mas sem esquecer que se não fossem as armações fora das quatro linhas, o sonho de ser campeão estadual teria acontecido muitos anos antes, para a alegria dos que se foram. E de quem se vai, não se esquece.

Mas, novamente arrebatado pelo velho sonho alvinegro, retorno às quatro linhas desta tela para escrever sobre a felicidade de ver agora o querido Estrela do Norte ser reinventado pelos dirigentes atuais.

As notícias que chegam, alvissareiras, mostram um clube vivo, ativo, e trabalhado por pessoas mais fortes do que aquelas que por desilusões dentro das quatro linhas campestres acabaram se afastando. Pessoas como eu, mas que nunca deixaram de ter esse nome gravado nos corações. Esse nome imortal e que se escreve fundo, em preto e branco.

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“Brilham, também os refletores / Sua cores, suas cores / Ele, é tradição do esporte / Como é forte, como é forte / O meu Estrela do Norte” – Hino do Estrela do Norte (Raul Sampaio)

 

 

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Ilauro de Oliveira

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