Artigo de Luiz Trevisan

A marvada histórica

Numa das últimas conversas, justamente lá no bar em curva da Graciano Neves, a qualidade da cachaça produzida em nosso Estado virou tema

Por | 20.04.2019

Luiz Trevisan

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Antes de se entregar à polícia, quando discursava para a militância, Lula cheirava a birita. Foi o que apontou a leitura labial feita entre os que estavam ao seu lado, no palanque. Nada de novo nem demais. Lula sempre foi chegado a umas e outras. E sindicalista que não bebe é estranho no ninho, quase um ET. Quando Lula esteve em Vitória, em 1981, nos arranjos de fundação do PT, fui escalado para entrevistá-lo na sede provisória do PT, que ficava na Rua Duque de Caxias, perto da Praça 8.

Era um sábado de calor, mas ele já tinha saído para uma feijoada “com os companheiros”. Acatei a sugestão de voltar mais tarde, quando encontrei Lula ainda ressonando sobre um banco de madeira, sem camisa. Suava e exalava birita. Juro que naquele momento eu não apostaria sequer uma dose de 51 que um dia aquele sujeito seria presidente da República.

Tempos depois, num meio de campo etílico feito por Raimundo Kappel (Mundinho), amigo de Lula desde o ABC paulista, bebemos por tabela da mesma garrafa de Old Parr. Por acaso, encontrara Mundinho, gente boa, ótimo papo, numa pousada, em Ubu, praia de Anchieta, ao meio-dia de um domingo. Na noite anterior, ele e Lula haviam detonado, em Vitória. Quando partiu para Ubu, no domingo, Mundinho levou o que restava do uísque, uns dois dedos, e esse foi o nosso brinde antes do almoço.

Anos mais tarde, com Lula na presidência, Mundinho foi nomeado Delegado Regional do Trabalho, em Vitória. Nos últimos anos, porém, Mundinho, sofreu com o descaminho do PT e seu projeto de poder, e podia ser visto nos bares da Rua Sete e Graciano Neves, ali onde o vento faz a curva, boêmios e abstêmios (poucos, é verdade) se encontram. Esquecido e triste, Mundinho partiu desta, e lá se foi um metalúrgico de resistência, batalhador, pessoa que nesta vida merecia melhor sorte e atenção.

  Numa das últimas conversas, justamente lá no bar em curva da Graciano Neves, a qualidade da cachaça produzida em nosso Estado virou tema, e Mundinho apontou que estávamos a anos-luz do que era produzido em Salinas, Januária e outros estrelados pólos mineiros. Fosse por diferença de solo, do tipo de cana, do modo de produzir, já que a tecnologia é praticamente a mesma, a aguardente capixaba perdera terreno e já não atendia paladares mais exigentes.

Porém o mundo roda, a cachaça sobe e mais recentemente o Espírito Santo parece ter redescoberto a vocação de bom produtor de aguardente. Dois exemplos são a premiada “Princesa Isabel”, de Linhares, e a purinha “Do Carlito”, de Espera Feliz, que fica na divisa com Minas Gerais. Ou seja, esta é meio capixaba meio mineira, mas de alguma forma significa que estamos avançando no ranking etílico.

Além de Lula e amigos, outros bebedores históricos não podem ser esquecidos nesta jornada garrafa adentro. Jânio Quadros costumava abusar, adorava inserir mesóclises de tira-gosto no papo enviesado, enxergava “forças ocultas” e, reza a lenda brasiliense, no auge de uma bebedeira renunciou ao mandato. Na Inglaterra, Winston Churchill, entre um charuto e outro, costumava traçar boas doses de uísque, às vezes falava pelos cotovelos, mas encarou Hitler de frente quando meio mundo inteiro se borrava de medo do comandante nazista. Incluindo considerável parte dos ingleses, que já queriam fazer com Hitler um acordo de rendição quando as forças alemãs invadiram a França. O recente filme “O Destino de Uma Nação” mostra essa batalha interna vencida por Churchill pregando resistência e reação militar – “Sangue, suor e lágrimas” –, isso depois de rolar muito discurso no parlamento e uísque nos bastidores.

A propósito, outro ótimo filme “A Queda” dá a versão do outro lado do balcão e mostra o bunker de Hitler no final da Segunda Guerra, quando o Exército Vermelho, sangue nos olhos, se aproxima de Berlim. Com o fim próximo, o bunker se tornou um sinistro botequim de oficiais nazistas. Entre um porre e outro alguém ingeria cianureto ou estourava os próprios miolos. Eva Braun, mulher de Hitler, costumava aparecer para uns tragos num avesso “happy-hour”, final de linha mesmo.

E quem nunca tomou umas e outras antes, durante ou depois de uma situação brava, que atire a primeira garrafa. Para mostrar que nem sempre a bebida atrapalha, vale reproduzir a historinha onde o coronel nordestino manda o capanga vigiar um adversário político para descobrir seus defeitos, as eleições se aproximavam. Relato do jagunço olheiro: “O homem é beberrão, brigão, mulherengo...” O coronel, puto, interrompe: “Pare de falar das virtudes, eu quero saber é dos defeitos desse cabra”.

 

 

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