Artigo de Luiz Trevisan

A bossa eternizada

Aquela canção modernizadora também ajudou a chutar para linha de fundo o “complexo de vira-lata que perseguia o brasileiro”, segundo Nelson Rodrigues.

Por | 12.07.2019

Aquela canção modernizadora também ajudou a chutar para linha de fundo o “complexo de vira-lata que perseguia o brasileiro”, segundo Nelson Rodrigues.

Foto: Adenor Gondin/Governo do Estado da Bahia

Ela desce de um carro e avança pelo pátio da antiga igreja matriz de Cachoeiro, ali perto do Liceu Muniz Freire, vai cumprimentando as pessoas meneando a cabeça. A certa altura, fixa o olhar na minha direção. Eu tinha entre os dedos o objeto do seu desejo. Avança ao meu encontro com o dedo indicador e o médio abrindo e fechando em V, sinalizando se eu posso ceder um cigarro. Ofereço um, que acendo fazendo concha. Ela traga e depois emenda soprando: “Vim de Nova Iorque, viajei a noite toda, e quando cheguei em casa, papai me pediu para vir aqui, no lugar dele”.

Acabara ali minha já remota esperança de gravar alguma coisa com João Gilberto, em Cachoeiro. A ocasião era apropriada, o casamento de um sobrinho próximo em que o papa da bossa nova fora convidado para ser padrinho. Apareceu sua representante, Bebel Gilberto, que alguns anos mais tarde faria sucesso como cantora, mais internacional do que nacional, e que também se tornou conhecida por um apelido irreverente da turma do Baixo Leblon: “Bebeu Gilberto”, por obra de suas extravagâncias etílicas fora dos palcos.

Mas se eu soubesse naquele dia perdido no calendário de 1994, o que sei agora –parece letra de samba-canção – teria valorizado aquele contato e gravado alguma coisa com Bebel, para encaixar no documentário em produção, “Cachoeiro em Três Tons”. Como Bebel tinha que seguir para a cerimônia do casamento, ofereci meu maço de cigarros de presente, não sem antes brincar de advertir: “Cantoras não devem fumar muito, hein”. E naquela época nem havia tanta patrulha antitabagista.

Já o hábito do seu pai fumar outro tipo de cigarro, digamos orgânico, deu muito que falar. Reza a lenda que ele brigou com o escritor Ruy Castro por ter citado isso no livro “Chega de Saudade”, uma notável apologia ao movimento bossa-nova que ele, João Gilberto, alicerçou há 60 anos ao gravar, com a batida inovadora do seu violão duas canções inesquecíveis. De um lado, “Chega de Saudade” (Tom-Vinícius de Moraes), no outro “Bim Bom”, do próprio João Gilberto um compositor meio bissexto. A primeira virou ícone, gerou até enquete famosa que volta e meia é reprisada: “Onde você estava e o que sentiu quando ouviu pela primeira vez Chega de Saudade?”

Até hoje a mídia celebra o surgimento daquele inusitado samba-choro. Iniciado em tons menores (“Vai minha tristeza e diz a ela...”), evolui em tom maior (... Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca...”). Gravado em 78 rotações, no mês de julho, seria lançado em 21 de agosto de 1958 ainda em meio à euforia da conquista brasileira da primeira Copa do Mundo de futebol na Suécia. De certa forma, aquela canção modernizadora também ajudou a chutar para linha de fundo o “complexo de vira-lata que perseguia o brasileiro”, segundo Nelson Rodrigues.

Último sobrevivente do trio seminal da bossa nova – Tom Jobim e Vinícius de Morais –João Gilberto passou os últimos anos chamando mais atenção por sua reclusão e silêncio deliberados. Virou tema do documentário “Onde está você, João Gilberto?”, feito por um cineasta francês Georges Gachot, com base no livro de um jornalista alemão Marc Fisher, lançado em 2011, que veio ao Rio de Janeiro na vã esperança de ouvir o mestre tocar na sua frente.

Por aí também se vê que ultimamente a bossa nova desperta mais interesse no exterior do que em seu próprio berço. Num dia de sol ou tarde gris, se você circular por Ipanema ou Bacutia, irá ouvir todo tipo de som – da sofrência ao sertanejo, passando pelo funk, pop, rap, pagode etc. – menos a música que encantou Frank Sinatra, Beatles e meio mundo, e agora costuma ser rotulada de “música de velho”.

Cercado de mistérios, folclorizado por suas manias – como gostar de dirigir de madrugada, não receber ninguém em seu apartamento e, ao mesmo tempo, passar horas e horas ao telefone falando com amigos e desconhecidos –, João Gilberto viveu os últimos dos seus 88 anos às voltas com problemas de saúde, querelas judiciais relativas a contratos e direitos autorais, em meio a uma ruidosa disputa familiar por sua tutela – e, por último, o espólio. Para um sujeito que prezava um cantinho, banquinho e violão, e só pedia silêncio, foi muito barulho ao redor.

 

 

Comentários Facebook


Mais Artigos

Decisão do STF sobre a prisão após condenação em segunda instância é uma vitória da Constituição

Interlocução de Erimar  e Pepe traz Marco Vivacqua para o time de Tininho.

A honraria e a sobrecarga

 Marataizes das lembranças do passado para o litoral do futuro capixaba 

Antes de entregar presidência do PSB, Bastos tentou agenda com Casagrande durante 4 meses

Por que Norma mudou o título para Marataízes?

Victor Coelho, o aluno nota A

Registro de filhos fruto de relação extraconjugal

Análise 2020 – Câmara de Itapemirim

Impacto digital - Jornalista comenta o fim do jornal diário A Gazeta

O que muda em relação ao trabalho aos domingos e feriados

Quanto custa um feriado?

A bossa eternizada

Neném, o comendador do povo de Cachoeiro

É possível cometer um crime e não ser condenado?

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.

© Atenas Notícias e Opinião.
Todos os direitos reservados.

Produção / Cadetudo Soluções Web