Artigo de Luiz Trevisan

Impacto digital - Jornalista comenta o fim do jornal diário A Gazeta

Jornais reduzem tiragem, se reciclam, alguns fecham, revistas somem ou encolhem buscando modo alternativo, enquanto cresce a mídia digital carregada pela dinâmica da interatividade.

Por | 04.08.2019

“O anúncio do fim do jornal diário A Gazeta, após 91 anos, e o mais vendido no Espírito Santo durante décadas, pegou muita gente de surpresa. O mercado, nem tanto. Há tempos o diário dava sinal de declínio”

De férias em São Francisco, Califórnia, em 2014, um turista capixaba saiu à procura de bancas de jornal e revistas, como já fizera em viagens anteriores, e não levou muito tempo para constatar que haviam desaparecido submersas pela onda digital, que agora chega com impacto. Há sempre um delay nessas tendências, derivadas da tecnologia e associadas aos novos costumes, conceitos e valores. Mas um dia chega o sinal.

Jornais reduzem tiragem, se reciclam, alguns fecham, revistas somem ou encolhem buscando modo alternativo, enquanto cresce a mídia digital carregada pela dinâmica da interatividade. Não é somente isso, há toda uma cadeia produtiva em xeque: do eucalipto às indústrias de papel, das gráficas às impressoras. Quem diria que dois eternos alvos dos ambientalistas – monocultura de espécie exótica e indústria de alto potencial poluidor – estariam com seus dias contados? Não precisa nem do empurrão da turma do Greenpeace. Enfim, tudo que é sólido se desmancha no ar dando lugar ao novo. Nem sempre melhor, necessariamente, mas diferente e desafiador.

O anúncio do fim do jornal diário A Gazeta, após 91 anos, e o mais vendido no Espírito Santo durante décadas, pegou muita gente de surpresa. O mercado, nem tanto. Há tempos o diário dava sinal de declínio. Chegou a vender 100 mil exemplares ao dia, ultimamente sua tiragem estava na faixa de 10 mil, a maioria para atender antigos assinantes. É o resultado de uma gestão empresarial questionável, da concorrência impactante de A Tribuna e, vindo na esteira, a migração digital.

Escritor e jornalista com longa passagem por A Gazeta, Álvaro José Silva minimiza a onda digital no declínio do matutino. Em seu blog, considera que a “longa agonia” do veículo decorre de fatores mais relevantes, como “divisão familiar, má-gestão, contratação de profissionais de outros mercados sem identificação regional, para cargos de chefia, demissão de profissionais experientes para contratar substitutos a preço vil”. E frisa: “Jornalismo é feito com os pés na cultura da terra onde é vendido. A Gazeta perdeu para o concorrente e por deixar de ser o que era”.

No mercado, há quem avalie que a anunciada prioridade à mídia digital está baseada numa tendência ainda não-cristalizada. Outros consideram prematuro o fim de um diário com tamanho recall e tradição, que poderia fazer como tantos outros veículos que estão se readequando. E que a retração atual de publicidade está mais associada à estagnação econômica vivida pelo País do que por situações pontuais.

Numa coisa, muitos parecem concordar: o fim do jornal Notícia Agora teria sido o único acerto do grupo em sua recente decisão, pois é um projeto que nasceu equivocado. Criado para concorrer com A Tribuna, nem passou perto de cumprir esse papel. Acabou tirando leitores do seu mais antigo veículo, o popular tiro no pé. De resto, vale lembrar que assim como a televisão não acabou com o rádio, a mídia impressa ainda tem nichos a explorar antes de jogar a toalha.

Luiz Trevisan é jornalista, com passagens pelos jornais A Gazeta (Coluna Praça Oito) e A Tribuna (Coluna Plenário).

Foto: Ilauro Oliveira

 

 

Comentários Facebook


Mais Artigos

Decisão do STF sobre a prisão após condenação em segunda instância é uma vitória da Constituição

Interlocução de Erimar  e Pepe traz Marco Vivacqua para o time de Tininho.

A honraria e a sobrecarga

 Marataizes das lembranças do passado para o litoral do futuro capixaba 

Antes de entregar presidência do PSB, Bastos tentou agenda com Casagrande durante 4 meses

Por que Norma mudou o título para Marataízes?

Victor Coelho, o aluno nota A

Registro de filhos fruto de relação extraconjugal

Análise 2020 – Câmara de Itapemirim

Impacto digital - Jornalista comenta o fim do jornal diário A Gazeta

O que muda em relação ao trabalho aos domingos e feriados

Quanto custa um feriado?

A bossa eternizada

Neném, o comendador do povo de Cachoeiro

É possível cometer um crime e não ser condenado?

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.

© Atenas Notícias e Opinião.
Todos os direitos reservados.

Produção / Cadetudo Soluções Web