Artigo de Pedro Paulo Biccas Jr.

A honraria e a sobrecarga

Destarte, recordo del Pichia que já dizia: Não indagues se nossas estradas, tempo e vento desabam no abismo. Que sabes tu do fim ?

Por | 28.10.2019

Era uma sexta-feira, o Centro Empresarial Via Sul estava ornamentado com a pompa correlata à ocasião: a Sessão Solene da Câmara de Marataízes. Naquela noite, receberia das mãos do presidente da câmara junto com o prefeito, a maior honraria da cidade, a Comenda Domingos José Martins.

Estávamos pontualmente à mesa, esbaforidos, talvez, pela ansiedade de minha pontualidade britânica. O fato é que estava naquele momento, pronto para dividir com toda minha família a honra de receber tal homenagem, inclusive meu pequeno Miguel Gentil que com apenas três anos, não compreendia muito bem, ao certo, o que estava se passando ali.

Muitos me disseram: “deixa com a babá”, eu não os culpo, por algumas vezes minha sogra já me socorreu neste quesito. Mas naquela noite não, aquela noite era diferente, era especial. Se de algum modo eu estava prestes a receber um reconhecimento por minhas atividades, pelo meu ofício exercido, meu filho era sim partícipe disso. Queria tê-lo comigo, fiz questão.

Lamentavelmente, o tanto que brincamos ao longo do dia fez com que suas energiazinhas estivessem já se esgotando e nem bem começava o cerimonial, meu primogênito já aproveitava as toadas do hino nacional para embalar-se num sono profundo, alheio a tudo e a todos.

Sabe, por mais que familiares se oferecessem, com a maior das boas vontades, para ficar com ele no colo eu permanecia reticente. Tê-lo em meus braços era como recriar a cena do principezinho de Exupéry em seu asteroide B612.

Não é fácil. Indubitavelmente, não é fácil. O dualismo entre os sucessos pessoais e profissionais nunca me pareceu uma escolha obrigatória. Teimoso, talvez presunçoso, ou até mesmo ingênuo, eu escolheria os dois! Sempre! Dividir-se entre a vida de pai, jornalista, assessor de comunicação e marido era trabalhoso, mas eu topava a parada. Entre minhas anotações e labutas domésticas, encontrava fragrâncias de ternura como quem percebe a meiguice exalada de uma orquídea comportamental moderna.

É claro que com tantas atribuições, encargos e competências, era evidente que eu precisava dedicar um cuidado especial com minha saúde mental, da mesma forma que um trabalhador operário braçal, fica atento a sua saúde corporal. Além dos exercícios de yoga e meditação durante a semana, frequentava salas de psiquiatra e psicóloga já fazia um bom tempo. Lamentavelmente, minha companheira não.

Não a culpo, entretanto, busco compreende-la. Ela já havia passado por poucas e boas ao meu lado. Todavia, insisto em enxergar a vida como um horizonte, sempre distante. O objetivo está justamente no caminho, não em caminhar para um objetivo alcançar e então se regozijar. A jornada em si, tornava o cotidiano mais desafiador, é verdade, justamente por isso insistia nos cuidados próprios, mens sana in corpore sano.

Enquanto eu divagava em meus devaneios particulares, absorto nestes pensamentos que nos encurralam para um ponto de convergência naquela decisão que, inegavelmente, terá de se tomar, o mestre de cerimônias chama meu nome. Deixo meu pequeno tesouro no colo do avô e vou ao encontro das autoridades municipais receber meu título e sua respectiva insígnia solene.

 De posse do referido prestígio, cumprimentei, de imediato, o pároco com quem havia confessado na tarde anterior e, por ocasião cerimonial, estava ali participando da composição da mesa. Estendi os cumprimentos aos demais, retomei meu assento e foi isto: um momento, um fragor de sucesso, um lampejo de brilho e a vida logo pede licença e segue.

Destarte, recordo del Pichia que já dizia: Não indagues se nossas estradas, tempo e vento desabam no abismo. Que sabes tu do fim ?

 

 

Comentários Facebook


Mais Artigos

Contrato de trabalho verde e amarelo

Decisão do STF sobre a prisão após condenação em segunda instância é uma vitória da Constituição

Interlocução de Erimar  e Pepe traz Marco Vivacqua para o time de Tininho.

A honraria e a sobrecarga

 Marataizes das lembranças do passado para o litoral do futuro capixaba 

Antes de entregar presidência do PSB, Bastos tentou agenda com Casagrande durante 4 meses

Por que Norma mudou o título para Marataízes?

Victor Coelho, o aluno nota A

Registro de filhos fruto de relação extraconjugal

Análise 2020 – Câmara de Itapemirim

Impacto digital - Jornalista comenta o fim do jornal diário A Gazeta

O que muda em relação ao trabalho aos domingos e feriados

Quanto custa um feriado?

A bossa eternizada

Neném, o comendador do povo de Cachoeiro

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.

© Atenas Notícias e Opinião.
Todos os direitos reservados.

Produção / Cadetudo Soluções Web